Relatório da PF diz que jornalista do Maranhão não cometeu crime ao publicar matérias sobre Flávio Dino

PF não encontra provas de que Luís Pablo tenha recebido pagamentos ou violado sigilo em matérias. O comunicador publicou reportagens sobre o suposto uso irregular de carro oficial do TJ-MA.

Um relatório de inteligência da Polícia Federal (PF) afirma que não foram identificados indícios de que o jornalista maranhense Luís Pablo tenha cometido crime de violação de sigilo funcional ou que tenha recebido dinheiro para produzir reportagens sobre o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF). O documento serviu de base para diligências determinadas pelo ministro Alexandre de Moraes contra pessoas relacionadas ao jornalista.

Em contraste com as conclusões da PF, o ministro Alexandre de Moraes mantém a investigação aberta, afirmando haver “indícios relevantes” de que o jornalista teria praticado o crime de perseguição contra o ministro Flávio Dino. O ministro citou manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR), que havia se posicionado favoravelmente às diligências.

Luís Pablo é proprietário de um blog voltado à política do Maranhão e publicou, a partir de novembro de 2025, reportagens questionando o uso de um veículo oficial do Tribunal de Justiça do Maranhão (TJ-MA) por Dino e familiares. O ministro afirma que não houve uso irregular do automóvel.

PF diferencia atuação de Luís Pablo e da fonte

O relatório analisado pelos investigadores teve como foco mensagens e documentos encontrados em equipamentos apreendidos durante as investigações. Segundo a PF, as conversas mostram que a fonte do jornalista, o ex-secretário estadual Raimundo Cutrim, enviava documentos e imagens ao jornalista por meio do WhatsApp.

Os investigadores também registraram que Luís Pablo se encontrou pessoalmente com a fonte e recebeu o material encaminhado por ela. No entanto, a PF não apontou a participação do jornalista em atos de perseguição.

O delegado Alberto Knoll fez uma distinção entre a conduta do jornalista e a de sua fonte ao encaminhar o relatório ao STF.

Segundo o documento, Luís Pablo estaria, em tese, protegido pelo direito à liberdade de imprensa. Já a conduta de um eventual agente público que acessasse informações restritas e as repassasse para publicação poderia, segundo a PF, configurar violação de sigilo funcional, prevista no artigo 325 do Código Penal.

A investigação apontou ainda que Luís Pablo mantinha uma postura crítica em relação a Flávio Dino e produzia reportagens que apresentavam o ministro como um político influente contrário ao governo do Maranhão. A PF, porém, não relacionou essa postura ao cometimento de crime.

Operação apreendeu equipamentos do jornalista

A investigação foi aberta a pedido de Flávio Dino. Inicialmente, o caso foi distribuído ao ministro Cristiano Zanin, mas acabou sendo redistribuído após o presidente do STF, Edson Fachin, considerar que havia relação com investigações já relatadas por Moraes.

Em março deste ano, uma operação autorizada por Moraes apreendeu dois celulares, um notebook e um pen drive de Luís Pablo. A análise dos equipamentos permitiu aos investigadores identificar a fonte das informações publicadas pelo blogueiro.

A partir da identificação de Raimundo Cutrim, a PF solicitou uma segunda operação de busca e apreensão, realizada na semana passada.

Cutrim também é investigado em outro procedimento relacionado ao assassinato de um funcionário da Secretaria de Educação do Maranhão. Esse caso está sob relatoria de Flávio Dino.

PF não confirma pagamento por reportagens

O relatório também analisou suspeitas de que Luís Pablo pudesse ter recebido recursos para produzir conteúdos sobre Flávio Dino.

Os investigadores encontraram conversas e movimentações financeiras que levantaram questionamentos, mas afirmaram não ser possível apontar “com máxima certeza” que o jornalista tenha recebido dinheiro para publicar as reportagens.

Entre os elementos analisados está a compra de um imóvel rural pelo jornalista, avaliado em R$ 461 mil. Parte dos pagamentos foi feita por diferentes fontes, incluindo o advogado Diogo Lima, que ocupou o cargo de secretário de Habitação de São Luís durante a gestão de Edivaldo Holanda Júnior.

Em uma das conversas, Lima enviou a Luís Pablo o comprovante de um depósito de R$ 100 mil feito para Danilo Cutrim Bezerra, identificado como vendedor do terreno.

A PF registrou que não foi possível determinar se Danilo Cutrim Bezerra possui parentesco com Raimundo Cutrim. Segundo o relatório, o sobrenome Cutrim é comum no Maranhão e seria utilizado por aproximadamente 14,7 mil pessoas, de acordo com dados citados do IBGE.

Conversas com advogado também foram analisadas

Os investigadores encontraram ainda diálogos entre Luís Pablo e Diogo Lima relacionados a reportagens críticas a Flávio Dino.

Nas mensagens, o jornalista encaminhava textos ao advogado, que fazia comentários e chegou a sugerir alterações no conteúdo.

Lima também foi alvo das buscas determinadas por Moraes na semana passada.

A PF analisou as conversas, mas não apontou que a atuação do jornalista nesses diálogos configurasse crime de perseguição.

Notas fiscais da Assembléia Legislativa

Outro ponto identificado durante a análise dos equipamentos foram notas fiscais emitidas em nome da Assembléia Legislativa do Maranhão para o Blog do Luís Pablo.

Os documentos registravam valores que variavam de R$ 12 mil a R$ 17,5 mil.

Questionado sobre a origem dos pagamentos, Luís Pablo afirmou que os valores correspondiam à veiculação de banners publicitários em seu blog.

Segundo o jornalista, os pagamentos eram realizados por uma agência de marketing contratada pela Assembléia Legislativa e também destinados a outros veículos de comunicação, como blogs, rádios e emissoras de televisão.

Luís Pablo afirmou ainda que os pagamentos foram suspensos no mês anterior em razão das regras relacionadas às eleições.

Decisão de Moraes apontou suspeita de perseguição

Embora o relatório da PF não tenha identificado elementos suficientes para atribuir ao jornalista os crimes analisados pelos investigadores, a decisão de Moraes apontou uma interpretação diferente sobre o caso.

O ministro afirmou ter identificado indícios relevantes de que Luís Pablo teria praticado perseguição contra Flávio Dino.

Na decisão que autorizou diligências, Moraes mencionou suposto suporte material e financeiro ao jornalista, além de possíveis tentativas de excluir mensagens consideradas relevantes para a investigação.

O relatório produzido posteriormente pela PF, contudo, fez ressalvas sobre a responsabilização do jornalista e destacou a proteção constitucional à liberdade de imprensa.

A investigação segue sob análise do Supremo Tribunal Federal.